Eu não vou odiar.
Eu não vou odiar, apesar de ser esse o caminho mais fácil para a superação da dor.
Eu não vou odiar, muito embora seja esse o jeito mais simples de explicar para si mesmo o fim de uma relação.
Eu entendo que é mais fácil mentir para si mesmo, transferir toda a culpa para o outro, odiá-lo e culpá-lo por todos os sofrimentos.
Eu entendo que é mais cômodo escolher um acontecimento e juntar todas as tuas forças e dizer "foi isso que fez acabar", mesmo que no fundo tu saibas que estás só te agarrando a algo para poder aliviar a dor.
Eu entendo que é, sim, mais fácil achar algo em que se possa pôr a culpa, e até mesmo que é mais fácil achar no outro o motivo por uma relação inteira não ter dado certo, pois isso te permite fugir, fazendo com que tu te sintas momentaneamente mais livre e leve.
Eu realmente entendo que esse é o caminho mais fácil. E é compreensível que se busque o caminho mais fácil num momento como esse.
Com o ódio e a raiva alimentados, fica mais leve a dor da perda, e disfarça, mesmo que superficialmente, todo e qualquer sentimento bom e bonito que possa existir.
Também entendo que agredir o outro e focar nele toda a raiva e frustração também te ajude a se recompor. É mais fácil se sentir forte quando temos o poder de agredir e diminuir o outro.
E eu entendo realmente o quanto é preciso se agarrar a esse ódio com força, para tapar o que se sente, para esconder de si mesmo o que é difícil esconder, aquilo que ainda é bonito dentro de ti.
Mas acredito que, fechando os olhos e se agarrando ao ódio, dê para passar por tudo, e que talvez esse seja mesmo o caminho mais fácil. Sair do outro lado, fingindo para si mesmo que aquilo era o certo a fazer, e que realmente a culpa foi de alguma coisa que o outro fez, isso te isenta de toda a responsabilidade. Feito isso, acredito que seja mais fácil conviver consigo mesmo, numa ilusão de que tudo foi uma grande injustiça e assim se desligar de tudo de bom que te liga ao outro.
Eu entendo. Realmente entendo. E concordo que seja o caminho mais fácil e mais leve.
Mas eu não vou odiar.
Não vou odiar porque, mesmo sendo mais fácil e permitindo que eu supere a dor mais rapidamente, não seria real, não seria verdadeiro, não seria justo.
Não vou odiar, porque não é da minha natureza o ódio. E não posso ir contra mim mesma, só para evitar a dor.
Não vou odiar, porque não conseguiria ser desleal comigo mesma e macular um sentimento tão bonito com agressões.
Não vou odiar porque simplesmente eu amo. E não consigo inverter esse sentimento só para facilitar minha saída.
O que eu faço então? Qual é o caminho que me resta? Resta o caminho da dor. E isso eu sinto. Diferente do ódio, dor eu sinto. E com toda a intensidade.
Dor pela perda, dor pelos erros e acertos, dor por ver todo um sentimento lindo sendo posto fora, dor por todas as lembranças.
Dor pela incompreensão, dor pela ausência, dor pelos sonhos desmanchados, dor pelas perdas compartilhadas, dor pelo vazio. E uma dor ainda mais triste: aquela causada por quem escolheu o caminho do ódio, e que, para seguir esse caminho precisa pisar no outro para sair.
E devo dizer que essa é uma dor difícil, talvez a mais difícil de suportar: a dor das palavras de ódio descarregadas em cima de ti, e vindas justamente de quem se ama. Essa não é uma dor fácil. Para suportar essa dor é preciso muita força. É preciso ser muito forte. E é preciso ter um amor ainda maior do que se tinha antes.
É preciso ter um amor tão grande que te impeça de responder, um amor tão grande que faça com que tu entendas até mesmo que o outro precisa daquilo para superar, e que, mesmo que ele te machuque, tu continues tendo clareza, mesmo em meio a dor, que tu não tens o direito de machucá-lo nao importa o quanto ele te cause dor. É o amor "que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta"... E aí tu choras, choras muito, porque sentes a dor, mas não te permites responder... Nem uma palavra sequer...
Não é o caminho mais fácil, com certeza. Ser pisada por quem tu amas e confias não é algo simples. Mas ainda assim, mesmo sabendo disso, essa é minha escolha. Esse é o único caminho que posso seguir. E digo isso, porque é o único caminho compatível com meu sentimento e com minha natureza.
Eu não odeio, eu amo. E jamais conseguiria escolher uma saída que pudesse machucar quem eu amo. Prefiro antes sofrer toda a dor, a machucar quem eu amo para conseguir sair e seguir meu caminho. Então, eu não vou odiar. Não vou odiar nem tratar com ódio, mesmo sabendo que vou sofrer muito e que talvez essa dor me acompanhe por muito mais tempo.
Não vou odiar porque eu amo. E sou leal com quem amo, mesmo quando não tenho o devido retorno.
Não vou odiar porque sim, eu sou responsável por quem eu cativo... e essa responsabilidade não some por causa de conflitos ou momentos de dor.
Então eu vou seguir, com essa dor imensa dentro do peito, mas inteira, amando, e mesmo que de longe, cuidando para que tudo dê certo com a pessoa que eu amo...
Eu vou seguir sim, mas sem ódio, sem agressões. somente com amor. até o fim.