O sorriso, a desconfiança, aquele 'será... não será' interminável... A espera, o coração batendo mais forte, pensamentos voando e começam os sonhos... E depois da espera, que apesar de não ser tão longa, é normalmente angustiante... Aí vem a resposta: sim... é mais que sonho. É verdade. E naquele mesmo instante, a plenitude da felicidade. Sentir-se completa, plena de si, feliz. Simplesmente feliz. Não ser mais um. Ser dois. Ter uma vida que é fruto da tua a formar-se dentro de ti. É o êxtase puro.
Mas esse estado não dura muito. Logo vem aquele vermelho assustador que a faz perceber que algo está errado. Sim. E está. E aí começa uma corrida. Uma corrida para manter a salvo aquele pequeno ser que cresce independente dentro de ti. Independente e ao mesmo tempo tão dependente dos teus cuidados até mesmo para continuar a crescer.
Repouso, cuidados, medos. Mas ainda assim, sonhos... Cada vez mais... Cada vez maiores... Imaginar o rostinho dele em cada imagem de criança que tu vês... Sentir as primeiras náuses... Sensação ruim, mas ao mesmo tempo reconfortante... é bom sinal... Está tudo bem com ele... Mesmo assim redobram-se os cuidados... E passas assim dias e dias... Dentro de casa a conversar com ele... Partilhando sonhos e sorrisos... Sentindo o corpo mudar a cada momento... Tantas novas sensações... E ele lá.. A se desenvolver silenciosamente dentro de ti... Provocando as mais variadas sensações... Coisas que tu nunca imaginaste sentir...
Mas de repente, um exame... E o susto volta... Ele ainda está em risco... 'Deveríamos ouvir o coração... É muito pequeno' dizem os médicos.. E o medo volta... 'Fica aí pequenino... Se segura... Eu vou ajudar você'... E mais e mais horas de conversa para acalmá-lo... para convencê-lo a ficar...
Mas com o medo começam as brigas... As intermináveis discussões... 'Não era para você ouvir isso, pequeno... Me desculpa'... A angústia aumenta... Conflitos... Conflitos e mais conflitos... E ele é tão pequeno, tão frágil... Como protegê-lo?
Novos exames e volta um pouco da confiança... Estavam enganados... Agora dá para ouvir o coração dele bater dentro de ti... 'A sensação é de que pertenço a você para o resto da vida'... É tão sublime... 'É um pedacinho de gente... dentro de mim... e o coraçãozinho a bater, rápido, forte... oh bebê... você tem meu amor para sempre'... Inúmeras juras de amor são feitas... Você se sente tomada de uma emoção jamais sentida. Não é preciso mais nada para ser feliz.
Mas os conflitos não param. É impossível chegar a acordos... E o medo cresce cada vez mais... 'Como posso garantir um mundo calmo e tranqüilo a você, pequenino? Tento achar saídas... Quaisquer saídas... Preciso resolver todo e qualquer conflito... você precisa ter um bom ambiente, bebê... E vai ter...' Aí tu tentas... com todas as tuas forças... é preciso resolver tudo... é preciso garantir que tudo vá ficar bem...
Mas não adianta. Aí começam novas discussões. Não há mais diálogos. Quanto mais tu tentas, mais complicadas as coisas ficam. Aí vem a noite. A briga é tanta... As palavras tão cruéis... Tu choras desesperadamente sabendo que não tem solução... E ele ouve... E sente... E se agita dentro de ti. Tu sabes que é ele que está ali, mas tu não queres falar... Não quer ter de dizer a ele a verdade... O teu coração aperta... Ele está ali, agitado... a pedir explicações... Então tu falas... 'pequenino, meu amor, não é tão seguro assim aqui fora... não posso mais dizer que tudo vai dar certo... porque não vai... o mundo é muito complicado.. e por mais que eu queira, não posso mentir para ti... eu sei, eu sei... eu sei que sentes o meu sofrimento... e não dá para fazer nada... o mundo não é fácil, pequenino... longe disso... eu queria te prometer proteção eterna... te dar toda a segurança possível... mas não dá... o sofrimento é inevitável... o mundo não é tão bom assim... desculpa, meu amor... queria poder te dizer outras coisas... ah, pequenino, como eu queria te dizer que tudo vai ficar bem... mas não vai...'
Depois disso vem um silêncio. Um silêncio duro, mortal. E volta o medo dentro de ti. Tu não queres acreditar que seja isso, mas no fundo sabes... Ele tem o direito de não querer vir para o meio disso tudo... Tu sabes disso. Mas não queres acreditar. Tu o chamas... 'pequenino, meu amor... tá tão quietinho... fala comigo, vai? não fica em silêncio... gosto tanto da tua companhia... minha vida não é completa sem ti'... Mas nada. Silêncio profundo e aterrador. As náuseas também não vêm. E tu sabes que há algo errado. Dentro de ti, lá no fundo, tu sabes.
Passam uns dias e vem novo exame. Tu te agarras a esperança de ouvir novamente aquele coraçãozinho a pulsar... Tu queres ouvir e te dizer... 'boba, ele só estava quietinho.. tu imaginas coisas demais'... Mas dentro de ti, tu sabes que a verdade é outra...
O exame começa... Tu vês ele ali, dentro de ti... Uma bolinha pequena e frágil... Bem pequena, mas que tu amas com todas as forças... Aí vem o momento do coraçãozinho... E tu esperas... ansiosa... mas não vem nada... Silêncio... Só o barulho do silêncio dentro de ti... E tu olhas desesperada para a médica. Não queres acreditar, não queres ouvir o inevitável... mAs tu ouves: 'não há mais batimentos. É o fim.' E tu olhas para ele naquele monitor... E não consegue acreditar no que ouves... Tu já sabias, mas ainda tinha esperanças... Ainda não tinha ouvido algo definitivo... A dor toma conta de ti...
É uma dor lascerante... Algo jamais sentido... Um vazio dentro de ti... Um silêncio de morte... Um silêncio que grita 'ele não quis fazer parte disso'... E tu tentas em vão falar com ele... Chamá-lo de volta à vida... 'não me abandones, pequenino... tu já és parte da minha vida'... Mas nada. Não há resposta. E não há como ter... Ele se foi... Era um mundo muito cruel para um pequeno anjinho... E ele teve medo de encarar tudo... Não ia conseguir... Tu sabes que não.. mas isso não diminui a dor... Foram tantos sonhos juntos... Foi toda uma vida planejada enquanto ele ainda crescia dentro de ti...
E de repente... ruínas... só o que sobram são ruínas... Ruínas que desabam em cima de ti... Aí vêm procedimentos... cirurgias... hospitais, clínicas de análise... toda uma série de procedimentos que tu fazes como se tivesse ligada a um botão automático... Ainda não consegues visualizar bem o que é a vida sem ele... Parece um sonho ruim apenas... Mas aí vem a dor... Uma outra dor... É a dor física que se junta a que tu sentes pela falta dele... E novamente o vermelho... um vermelho cruel... vermelho que toma conta de tudo... e que joga na tua cara... 'não tem mais volta'... E tu ficas ali.... implorando para que a dor passe... implorando para que o pesadelo acabe... e a mistura das duas dores parece te enlouquecer... E persistem assim... por uns dias mais... para acabar de vez com qualquer esperança... para reforçar a separação difícil que acontece dentro de ti... É o pior último adeus que tu já destes... 'pequenino, eu já te amava tanto... me perdoa por não ter podido oferecer a proteção e a segurança que tu precisavas... me perdoa por não poder te oferecer algo bom... mas eu te amei pequenino... com todas as minhas forças...'
Mas só há o silêncio agora... Só o teu silêncio... Nem o dele há mais... Ele se foi... Não há mais nada lá... Só o teu vazio que ainda grita a dor da ausência dele.. E tu tens de continuar... Sozinha agora... Não é mais dois. Agora és só uma de novo... Ou menos ainda... talvez meia... porque ele levou muito de ti... O sonho simplesmente se desintegrou frente aos teus olhos... E o cruel é que não foi um sonho... Foi real... Tu tiveste ele vivo dentro de ti... Sim, tu viveste aquilo... Tu viveste aquele sonho de verdade... E depois de começar a vivê-lo, tu o perdeste... Acho que esse é o ponto mais difícil... Foi mais que um sonho... foi uma perda real... Por algum tempo tu foste dois. Foste mãe. E agora não mais. E o irônico é que agora, com isso, tu nunca foste... Como se nada tivesse acontecido nesses dois meses... mesmo tu sabendo que foram os dois meses de sentimentos mais fortes que tu tiveste... Mesmo tu sabendo que foram momentos divididos com um pequenino ser dentro de ti...
E às vezes, ainda tens a sensação de que nada aconteceu... que foi tudo um sonho mau e que ele ainda está la... é difícil superar a falta dele na tua vida... aí tu tocas na tua barriga e relembras que não... que ele realmente se foi... e tu ficas ainda a procurá-lo em todos os rostinhos de criança que vês na rua... Mas tem de tentar desfazer um a um os sonhos traçados... Tens que deixá-lo para trás...
É cruel, mas acabou. E tu tens que seguir depois que algo acaba... Mas seguir para onde? Tu já tinhas, junto a ele, toda uma vida traçada.. e agora... não sobrou nem sombra de tudo aquilo... Só o que sobrou foram os conflitos não resolvidos e mais complicados ainda de se encarar... Só o que sobrou foram ruínas e vazios... Silêncios e dor... Ausências e abismos... E então? o que fazer depois que acaba?