Dizia minha mãe, quando eu era pequena, "teus atos falam tão alto que não consigo ouvir o que tu dizes". Era comum ouvir isso toda vez que a gente aprontava alguma coisa e vinha com aquela cara safada dizendo que a amava. Isso fez com que eu crescesse sempre prestando atenção nas ações das pessoas. Não que eu não preste atenção nas palavras. Bem ao contrário, sou apaixonada por palavras. Mas o ponto-chave é justamente contrapor as palavras aos atos. Isso normalmente evidencia tantas contradições que costumam passar desapercebidas quando nos relacionamos. Não vemos o que está na nossa frente, porque só ouvimos as palavras. E pior, às vezes, ainda temos ouvidos seletivos, só ouvimos o que queremos ouvir. E não que isso seja proposital ou maldoso, mas acho que estamos tão centrados em nós mesmos, nos nossos anseios, sonhos e preocupações, que só coisas que vem ao encontro do que esperamos é que nos fazem sair dos nossos pensamentos e ouvir o outro. Aí juntamos essa informação às nossas e seguimos. Simples assim. E fechamos os olhos para todos os atos que nos indicam que nada é do jeito que interpretamos. Nada é da maneira como foi ouvido.
Não sei porque hoje essa frase da minha mãe me veio à mente... Aí fiquei pensando, divagando sobre isso... E cheguei num outro extremo: E quando não há atos? E quando resta só o silêncio? o nada? Bom, acho que o silêncio por si só também fala. E fala muito alto. Só que o barulho do silêncio é muito mais difícil de ser interpretado, entendido...E isso faz com que a maioria das pessoas ignore sua existência ou diga que não significa nada. Mas significa! E muito! O silêncio tem inúmeras formas de ser, de existir. Mas fico pensando de novo, na questão da relação das palavras com os atos, ou das não-palavras - no caso, o silêncio - com os atos e aí percebo que o silêncio está ligado ao não-ato, a indiferença, a completa e absoluta indiferença ao outro. O não-ato, por si só, já é um ato. E o barulho imenso dessa indiferença se expressa pelo silêncio. Só que, quando isso nos acontece, insistimos em ignorar, em encontrar desculpas, em arranjar justificativas mil para esse silêncio. Em nenhum momento sequer conseguimos ver o que está na nossa frente. E novamente digo que não é de propósito ou por maldade, mas é talvez por estarmos acostumados a viver num mundo onde se finge tudo e temos um medo gigante de ouvir a sinceridade. A sinceridade que insiste em gritar nesse silêncio, dizendo com todas as forças: "o outro é indiferente a você!"
E aí seguimos com essa mentira. Ou posso dizer que nos protegemos com essa mentira. Essa mentira inconsciente que no final das contas não protege coisa alguma, ao contrário, cria novos silêncios mais fortes ainda dentro da gente. Cria um silêncio de falsidade com a gente mesmo, um lugar onde não olhamos dentro de nós mesmos, que evitamos chegar perto, mas ele está lá. E, a cada dia que passa, ele faz mais barulho. E vai minando a gente por dentro. Até o ponto de estarmos nos sentindo com se fôssemos enlouquecer, a ponto de precisar correr sem parar, como se a cabeça fosse explodir a qualquer instante. E corremos, corremos. Castigamos o nosso corpo ao máximo para conseguirmos dormir, e calar um pouco, com o cansaço, aquele silêncio dentro da gente. Mas isso não resolve. É apenas um paleativo. O silêncio permanece lá. E aos poucos ele volta a gritar, gritar e gritar dentro de nós.
Aí minha pergunta é: se somos seres tão racionais, por que não paramos e encaramos esse silêncio? Por que não conversamos com ele e resolvemos isso? Por que não conseguimos ouví-lo e encará-lo, parar para escutar o que ele tem a dizer? Por que temos tanto medo da sinceridade assim? Talvez seja por uma proteção inconsciente, porque não queremos sofrer. E temos medo que a verdade nos faça sofrer. Mas a questão é, se lídassemos sempre com a verdade não teríamos falsas ilusões, não veríamos coisas onde não existe nada, conseguiríamos juntar palavras e atos, silêncio e não-atos, e isso seria tão claro que não teria porque doer. Então também não teria porque criar silêncios internos barulhentos e pertubadores...
Mas isso deve ser pedir demais. Preferimos seguir no mundo das palavras soltas e sem sentido, distantes e contrárias aos atos. Preferimos nos enganar a simplesmente entender, olhar e aprender sobre o barulho do silêncio... do nosso silêncio.
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